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Este blog tem como marco referencial a Educação.
O objetivo é ser uma fonte de informação,atualização,dicas,ponto de partida para consultas, reflexões, comentários, colaborações, histórias e causos que giram em torno do ensino, da aprendizagem, de toda a sua dinâmica e de fatos correlatos que influenciam todo este processo de alguma forma.


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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Importância de contar histórias para seu filho

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"A leitura  e o contato com os livros são de fundamental importância para o desenvolvimento das crianças. E não é preciso começar apenas quando seu filho for alfabetizado.
Com a correria do dia a dia, a prática decontar histórias está perdendo cada vez mais espaço. E isso é uma pena porque é ouvindo histórias que a criança adquire o gosto pela leitura, amplia o seu vocabulário e desenvolve a linguagem e o pensamento. Além disso, as histórias também estimulam a atenção e a memória, despertando a sensibilidade e o imaginário e contribuindo para a formação do caráter."
Veja mais em: 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Dica de Leitura

     Uma linguagem objetiva,ágil,cheia de simbolismo e com um humor inteligente.
     É desta forma que LUCAS STEINMETZ conduz sua fábula (ou lenda)  de humor em seu livro DAVI EMANUEL CONTRA O APOCALIPSE.
     Lucas é estudante de jornalismo e já demonstra uma carreira promissora.



terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uma manhã de reflexão


            Nestes dias fui ao centro da cidade onde moro. Gravataí é uma cidade interessante.Ao mesmo tempo que possui um desenvolvimento ativo contrapõe-se ainda o ar de cidade do interior.Tudo no centro desta cidade é próximo.O comércio,instituições municipais,hospitais  e bancos convivem lado a lado facilitando a vida dos munícipes.Gosto da zona central deste município.
            Nada disso tem haver com o que me levou a um dia de reflexão sobre a vida e dos encontros nada fortuitos encontrados em nossos caminhos. Já havia resolvido toda minha agenda daquela manhã de sol acalentador.Fui em direção a uma parada de ônibus para retornar para casa.Um grande número de pessoas estavam a espera de sua condução,assim como eu.Algumas formavam grupos de tagarelas que comentavam os mais diversos assuntos.Outros chegavam angustiados questionando se este ou aquele coletivo já havia passado e já emendavam uma boa prosa entre si.
            Observei que um rapaz atravessava a rua carregando uma pasta modelo executiva (as antigas 007) e pelo seu andar conclui que estava embriagado. Vinha em minha direção,aliás é uma coisa que eu atraio são indivíduos carentes,mendigos,problemáticos e embriagados.Talvez um “carma” ou uma missão.Sou bom ouvinte e tenho uma veia bem desenvolvida para o tipo “paizão”.
            - Bom dia meu senhor, com sua licença qual o ônibus que pego para ir ao Pan?
             ?  Raciocinei rápido e não consegui achar a informação solicitada.
            - PAN, meu senhor, P, A e N. Desculpe, mas é Pronto Atendimento.
            -Ah! Existem algumas linhas de ônibus que passam por lá - citei o nome delas e ele sorriu.
            Ele deposita a sua pasta no chão ao seu lado, olha para uma senhora que está próxima e diz:
            -Cuidado, minha senhora. Não vá bater na minha pasta.Aí dentro tem uma bomba.Se a senhora tropicar nela vai explodir e BUM ! Estaremos ao lado de Deus, Nosso Senhor, rapidinho.
            A senhora olha espantada e toma certa distancia olhando seriamente para o rapaz.
            -Desculpe minha senhora. Estou brincando com a senhora.estou feliz hoje e gosto de brincar respeitosamente.
            Sorri e olha para mim.
            - O senhor é um iluminado, um iluminado e enxerguei isto quando estava atravessando a rua. estava mal e cheguei perto do senhor e fiquei bem.O senhor é filho de Ogum e é iluminado.
            - Não é bem assim. Fico contente que estás feliz.
            - É estou indo para o PAN ver meu querido pai. Ele teve um derrame hoje pela manhã e eu,mesmo bebam,salvei a vida dele.Os para médicos da Samu disseram que seu não tivesse feito massagem cardíaca e respiração boca-a-boca até eles chegarem...ele tinha conhecido rapidinho meu irmão...Jesus Cristo.
            Passa outro senhor por perto e ele fala em voz mais alta ainda:
            - Olha a bomba!  Apontando para a pasta e sorrindo. Pede desculpas pela brincadeira ao senhor que lhe devolve um sorriso e um ar de estranheza.
            - E como está teu pai agora?
- Bem... quer dizer está no PAN fazendo exames e medições adequadas ao caso dele.
Notei que ele tinha uma facilidade em se expressar com certa correção gramatical. Não estava maltrapilho.No pescoço havia uma corrente com um crucifixo e nos dedos de uma das mãos havia um anel que não tinha aparência de bijuteria.
-Onde aprendeste a realizar os primeiros socorros?
- Meu senhor, tenho o ensino médio completo. Sou formado em Técnico em Eletricidade Industrial.Aprendi a fazer os primeiros socorros lá no Senai.Uma professora e um grupo de paramédicos nos ensinaram.Com isto salvei meu querido pai.
-E não exerces a tua profissão?
- Exerço. A de bebum ! (dá uma gostosa gargalhada). Sou baladeiro e bebum profissional.Até hoje não descobri o que fazer com meu certificado do ensino médio e muito menos com o do técnico.Virei bebum profissional...profi,meu senhor.
Com uma gargalhada gostosa se abaixa e começa a abrir a sua pasta.
-Olha a bomba! Olha a bomba! Vou lhe mostrar o que eu trago dentro desta pasta. Calma pessoal,é brincadeira,desculpem-me ! Sou muito brincalhão, mas não sou abusado!
Abre a pasta e para meu espanto lá dentro havia em torno de uma doze caixinhas de remédio, a maioria com tarja preta e uma garrafa pet pequena com um líquido cor de vinho. Havia documentos e papéis.Entre eles o certificado do ensino médio e do técnico que ele havia falado.
- O que é isto?
            - Senhor, isto é para que eu possa ficar feliz e se alguém não está feliz eu dou um destes comprimidos e pronto (grande gargalhada). Agora vou lhe mostrar a bomba.Aqui.Esta aqui é demais.
            Exibe uma garrafa pet cheia de vinho tinto e toma um gole.
- Esta faz esquecer que estudei para nada!Nada! Nada! Minha mãe é que me fez estudar e me levou no médico, pois eu era imperativo (outra gargalhada). Nada disso, eu sou bebum profi.Profi!
Aproxima-se o ônibus e ele rapidamente fecha a maleta. Dá um descoordenada corridinha.Entrando no ônibus vira-se e grita:
- Iluminado, fica com Deus! Olha a bomba! Olha a bomba!
Fiquei ali parado olhando o ônibus se afastar. O que leva uma pessoa a esta situação ? Como o espírito deste indivíduo vê este plano e a que veio, na verdade. Há culpados ? Quem?
Pensem nisto e tentem chegar a uma conclusão.

(Renato Hirtz - novembro 2011)

            

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Causo : Seu Ziraldo


Blog de coisastantasderenatohirtz :COISAS TANTAS DE RENATO HIRTZ, Causo : Seu Ziraldo
    Vovô Ziraldo ou tio Zira como era conhecido pelas pessoas é uma figura especial. Aos oitenta e dois anos possui um nível de vaidade que beira as raias da alucinação.Cabelo cuidadosamente cortado e penteado,barbeado com requinte e com um bom gosto para se vestir provocava até nos mais jovens uma inveja saudável. Para dar uma voltinha por aí com sua “eterna noiva” de oitenta anos não media esforços.Dona Hortência recebia uma severa reprimenda se descuidava da aparência e estilo ao se vestir,observando com rigor quando o peso dos anos fazia vacilar seu caminhar elegante.
   - Olha a corcunda, Tência ! (o nome original foi abreviado com o passar do tempo). É de bom tom mulher andar corretamente com sapatos de saltinho. Não tirava os olhos da postura de sua mulher. Sempre foi muito exigente consigo e com sua esposa ao longo dos quase 65 anos que se conheciam.Compra de perfumes,cosméticos,sessões de massagens,cabeleireiro,dentistas e visitas sistemáticas ao doutor ,ou melhor,aos doutores eram religiosamente efetuados.Nada podia atrapalhar as suas vidas ou afetar a aparência deles.
   Dona Hortência fala com orgulho da beleza que seu Ziraldo possuía na juventude e do seu ciúme que lhe corroia as entranhas quando iam aos bailes do clube da cidade natal. Os olhos verdes,o cabelo loiro liso e grosso caído na testa, seus ombros largos provocavam frenesis nas garotas quando ele adentrava ao salão e sofriam com os "olhos gordos " que botavam quebrantes ao namoro dos dois.O casamento,a lua de mel e dali para frente o relacionamento sempre foi intenso. Vô Zira com um sorriso de canto de boca estufava o peito fazendo um barulho gutural para disfarçar orgulho que crescia no íntimo ao ver sua noiva falar tudo aquilo. Neste momento ele interrompia com aquele ar de inocente humildade:
   -Não é tudo isto. Eu dava para o gasto.Linda sempre foi a Tência.Olhos negros combinando com a cor do cabelo,pele morena,lábios de uma grossura sedutora,seios....seios fartinhos,coxas na medida e aquele traseiro...
   - Tenha mais respeito Zira. Tem visita na sala.Depois de velho ficou tarado ?
   - Fiquei não. Sempre fui ! E a culpa é deste teu corpaço...
   -Quieto! Já chega. És de pouca vergonha.
   Houve uma sonora e gostosa gargalhada e o som de um beijo na face da dona Hortência que revida com o cotovelo afastando carinhosamente o seu velhinho de perto.
   -Modos... modos menino.
   E assim viviam os dois numa verdadeira casa de boneca onde uma vez por semana se fazia presente a Marli para fazer uma faxina. E ela era motivo de uma briguinha entre os dois.Dona Tência cismava que Zira não desgrudava o olho do traseiro da faxineira e ele negava de mãos juntas "por esta luz Divina que me ilumina".
   Quando a filha mais velha ia visitar os dois havia uma conversa muito particular entre mãe e filha. E o assunto era timidamente repetido pela dona Tência:
   -Acho que teu pai à medida que avança na idade está ficando tarado, maníaco ou esclerosado. Coloca horário para tudo.Principalmente quando chega a noitinha.Café da tarde tem que ser as quatro,janta as sete e deitar tem que ser as 10 horas.Nem um minuto mais,nem um minuto menos.
   - Ah, mamãe! Estas são manias de pessoas idosas. Vocês sempre estabeleceram horários para tudo quando éramos crianças.E papai fixou esta rotina.
   - Menina ele entra em pânico quando não consegue deitar no horário e só falta mandar as visitas embora quando se aproxima do horário de dormir. E,o pior é em relação ao sexo.É quase todos os dias me incomodando e sempre no mesmo horário.Ele não perdeu as forças ainda.
   - Calma mamãe. Ainda bem que papai tem saúde e não está entrevado numa cama ou coisa parecida.
   -Outro dia fomos a uma festinha de aniversário de uma vizinha, lá no final da rua e ele me fez passar por uma situação constrangedora. A festa estava ótima,bastante salgadinhos,docinhos e refrigerantes e quando o relógio marcou nove e meia da noite me deu a impressão que ele tinha sofrido uma possessão demoníaca.Queria ir embora de qualquer jeito.No meio de uma boa prosa com uma conhecida minha tive que deixar a mulher falando sozinha.Teu pai me agarrou pelo braço com aquela mãozona e quase me arrastou pela rua ,pois tinha que chegar em casa as quinze para dez.Tu acredita ?
   -Vou falar com Gilberto. Meu irmão vai falar com papai sobre isto.
   - Não cai na asneira de dizer que eu falei alguma coisa. Diz para Gilberto dar uma volta e sondar a situação.
   Passado alguns dias, lá estava Gilberto assando um churrasco para recepcionar os dois progenitores. Vô Zira não dispensava uma boa cerveja sempre que podia comemorar alguma coisa.Estar na casa do filho comendo um churrasco,sentado numa boa cadeira de praia,vendo os netos correndo pelo pátio merecia uma comemoração.
   -Pai, como estão as coisas?
   -Não podiam estar melhores. Tudo em paz,aposentadoria na medida certa,tua mãe com saúde ,eu e meu velho guerreiro firme e forte.....o que mais que eu quero.
   -Vais ficar aqui para dormir e aproveitar o domingo conosco.    Seu Zira remexeu o corpo na cadeira, ficou hirto e quase em estado de choque falou com voz alta e firme:
   -Não! Não! Não trouxe meus remédios e não posso passar sem eles. Nada disso.Oito horas me leva para casa,pois antes das quinze para dez tenho que tomar meus remédios e deitar com tua mãe as dez.
   -Hei, mas porque este estresse?Qual o motivo desta angustia?E porque este horário tão rígido?
   -Rapaz, não contraria teu pai. Tenho oitenta e dois anos e não é tu que vai me dar rumo agora.Vou para casa.Eu e tua mãe tomamos nossos remédios e dez horas....cama !
   -Não entendi a necessidade dos quinze para dez e deitar às dez horas.
   -Putz!É que eu separo os remédios da tua mãe e os meus. No meio dos nossos remédios eu coloco a azulzinha.Rapaz,o efeito começa em quinze minutos e não sou bobo de perder o efeito que provoca em mim e na tua mãe.
   Ouve-se uma gostosa gargalhada que é interrompida rapidamente pelas mudanças faciais do Vô Zira. Com uma carranca de botar medo até em fantasma olha para o filho e dispara:
   - Se tu me contar para tua mãe ou para mais alguém... eu te capo e nem azulzinha vai adiantar.Assunto encerrado e me passa uma lasca desta picanha mal passada.
   Sem acreditar no que ouviu Gilberto só consegue dizer:
     -Sim senhor.


Renato Hirtz
Março/2011


Imagem Fonte:

A PRETA CREUSA

Blog de coisastantasderenatohirtz :COISAS TANTAS DE RENATO HIRTZ, A PRETA CREUSA
   Barbosinha era um funcionário de uma Secretaria da Educação. Formado em Pedagogia, com especialização em Supervisão Escolar, foi transferido para uma Coordenadoria de uma cidade do interior. Era um especialista em educação e como tal muito educado, trabalhador, dedicado e gostava do que fazia.
   Recém chegado na Coordenadoria, como é natural, não tinha noção de como era a rotina de trabalho, com os colegas e com os meandros da política local. Ficou determinado pela chefia imediata que iria fazer supervisão nos estabelecimentos de ensino no interior da região. Orientar,verificar e resolver “in loco” os problemas que pudessem estar ocorrendo na dinâmica pedagógica era sua missão.. Os locais eram os mais diversos e variavam as distâncias. Algumas escolas se localizavam a grandes distâncias,levando quase meio dia de viagem,ainda mais pelas condições precárias de acessibilidade.Foi-lhe dito que a visita de um supervisor a estas unidades escolares,em 99% dos casos,era uma festa.Isto acontecia porque os professores e as diretoras das escolas gostavam das “novidades” referentes à educação e outros assuntos (fofocas,na verdade) que estavam em pauta no momento.
   Mandaram o Barbosinha falar com o encarregado do transporte. Ele teria uma condução disponível para seu deslocamento e de outros colegas supervisores que o acompanhassem,caso houvesse necessidade.Não perderiam tempo utilizando-se do transporte coletivo que era precário na região e com horários reduzidos.
   Lá se foi o “Professor Barbosinha”, feliz da vida conversar com o encarregado do transporte. Seu Virgílio, funcionário cedido pelo município sede, era um baixinho, atarracado, com um bigode de fazer inveja e com uma melena penteada no capricho com gel fixador. Estava encostado na Brasília76,carro oficial azul e branco usado pela senhora coordenadora.O carro tinindo de tanto lustre estava embaixo da sombra que fazia uma velha figueira.Coçando a orelha com aquela espetacular unha do dedo mínimo,ficou só de olho no “peão” que vinha se aproximando.
   -Sou o professor Barbosa. Muito prazer em conhecer o colega.Sou o novo supervisor da coordenadoria.Vim conversar com o Senhor sobre a condução que vamos usar para visitar as escolas.
   -Ah!Sim, sim. O Senhor vai usar a Preta Creusa. O sistema está funcionando. Às vezes a bateria dá “os doces”,mas é só da um tranco e a coisa funciona.As “luz”,conforme a buraqueira apagam,mas logo volta.O resto funciona normalmente.Só tem que cuidar é com a direção .É muito sensível e o setor de direção tá com uma pequena folguinha.
   O Barbosinha não quis interromper o Seu Virgílio. O que ele havia perguntado ou pensou em perguntar é como ele poderia dispor do veículo que iria usar.
   -Não se esquece de ver com antecedência – continuou o Seu Virgílio cofiando o bigode com a unha de tamanho avantajado – é a distância que vai andar para calcular o quanto tem que levar de gasolina extra. O senhor vai abastecer nos postos de gasolina indicados pelas prefeituras dos municípios que fazem parte da região.Vamos ver a “preta” e já lhe deixo com as chaves.    Quando o Seu Virgílio abriu a porta da garagem, o Barbosinha quase teve uma síncope cardíaca. O veículo,a “preta Creusa” era uma Rural 1966(e olha que o fato ocorreu em 1987) de cor preta,com uma tarja branca nas portas,com uns escritos que só dava para ler “SUTERGS” ou coisa parecida.
   A porta do motorista quase veio abaixo quando Barbosa abriu, forçando um sorriso de contentamento. Os bancos uma vez foram pretos  possuíam remendos de matizes variados.Barbosinha limpou com a mão aquilo que chamavam de banco e sentou-se com uma palidez invejável.Virou a chave e tentou dar partida do motor.Só ouviu-se um “tec”.
   - Para que é a bateria. Eu falei que ela era geniosa.Tem uma de reserva lá atrás.Faz-se uma ponte e já era,falou Seu Virgílio. Feita a ponte foi dada à partida no motor. Quando o motor começou a funcionar parecia que o ar ao redor do famigerado veículo havia sumido.Uma espessa nuvem de fumaça branca tomou conta do local e o cheiro de gasolina tornou-se insuportável.
   -Eu não disse! Gritava emocionado o Seu Virgílio. A “preta creusa” não nega fogo.O senhor passa no posto de gasolina da esquina e abastece.Depois passa no Setor de Manutenção da Prefeitura e pega um macaco do Brás emprestado,caso fure algum pneu.
   Corcoveando que nem mula lá se foi o Barbosinha tentando dirigir aquele veículo do inferno. Era uma situação de risco de vida imediato.O freio funcionava na quinta pedalada,o volante tinha exatamente duas voltas e meia de folga,as marchas engrenavam quando queriam (e escapavam também da mesma forma!)....mas fazer o que ? Era aquilo ou longas horas de espera na beira das estradas pelos ônibus de linha.
   Abastecido o veículo dirigiu-se ao Setor de Manutenção como havia sido orientado.
   - Boa tarde! Vim pegar o macaco do Brás... Nem tinha terminado de falar Brás e se deu conta do que tinha dito. Barbosinha,pensou,sobre a mancada produzida!
   O atendente que estava na entrada do portão com um sorriso no rosto grita pelo nome do Brás. Um negro com um metro e noventa,uma verdadeira muralha,vestido em um macacão que um dia devia ter sido amarelo,pois estava totalmente sujo de graxa aparece na porta do galpão.
    - Hã ?
   Barbosinha gelou quando pensou que o atendente iria dizer exatamente o que ele havia falado segundos antes e saltou na frente dizendo:
  -Nada de importante.Só passei para conhecê-lo. O Virgílio manda lembranças e um abraço...
     Consegue engatar a primeira marcha e sai de fininho dando um adeusinho para o Brás que até hoje não entendeu nada.

Renato Hirtz
Outubro de 2004

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Vovô Zílio (verídico)

Blog de coisastantasderenatohirtz :COISAS TANTAS DE RENATO HIRTZ, Vovô Zílio (verídico)
     Um velhinho daqueles que qualquer um gostaria de ter como avô. Alegre,perfumado e muito faceiro gosta de estar sempre bem informado.Não há o que não lê e está sempre atrás de boa informação.
   Lúcido, extremamente lúcido nos seus oitenta e cinco anos. Ainda trabalha em uma empresa três vezes por semana e produz satisfatoriamente para acrescentar a sua aposentadoria uma boa parcela de reais.Sua conversa é agradável,atual e uma boa fonte de informações sobre vários assuntos.
   Estes dias veio me questionar sobre mudança de sexo, pois sabe que sou professor de biologia. Fez uma relação de famosos e não famosos que trocaram de sexo alguns dos quais eu nem sabia que haviam feito isto.Bem falante,disse que não tinha nenhum preconceito sobre estes procedimentos,pois cada um tem o direito de escolher e dar um rumo a sua vida.A sua curiosidade era sobre os procedimentos cirúrgicos para tal fim. Sentei-me com ele na frente de um computador e comecei a mostrar uma série de slides onde apareciam todos os passos para realizar tal transformação.
   Como bom professor fui didaticamente explicando cada etapa,o que era feito e de que forma.Com muita atenção sentia que ia absorvendo toda explicação e entendia perfeitamente a leitura que fazia de cada imagem.Questionava quando não entendia e fazia comentários das dificuldades de recuperação do paciente,da técnica cirúrgica,do espantoso avanço da medicina e os slides foram mostrando a finalização da operação.
   Quando chegamos ao último slide onde aparecia o órgão genital feminino após certo tempo do ato cirúrgico, inocentemente voltei-me para ele e disse, automaticamente, que ali estava um homem transformado em uma mulher com os órgãos genitais ( vulva e vagina) perfeitos. Neste momento, vovô Zílio começou a rir. Passou a gargalhar quase convulsivamente sem parar.
   Fiquei sem graça,quase atônito me questionando o que havia dito de tão hilário para causar tamanho alvoroço.Após alguns segundos que pareceram uma eternidade,ele já refeito e vendo minha fisionomia de espanto,colocou sua mão sobre meu braço e disse:
   - Não fique abalado, meu filho. Não é nada com a troca de sexo ou com sua explicação que me fez cair na gargalhada.Se você não tivesse dito que aquilo era uma vulva e uma vagina eu não lembraria...Me dei conta que faz tempo que não vejo uma !
   Ainda sorrindo, agradeceu a explicação e saiu pensativo porta a fora.

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Renato Hirtz
Fev/2011

CAUSO : JAMBOLÃO, O SEGURANÇA

Blog de coisastantasderenatohirtz :COISAS TANTAS DE RENATO HIRTZ, CAUSO : JAMBOLÃO, O SEGURANÇA
{#}   Era uma noite muito fria.
      Terminada a sua jornada de trabalho, sem carro e sem carona, o Professor Freitas ia pela rua pouco iluninada com sua pasta envelhecida pelio tempo e fumando um cigarro. Pensava nas contas a pagar, nos filhos, na esposa e nos seus alunos e alunas que poderiam ter uma vida bem melhor se ouvissem os seus conselhos.
     O professor Freitas era daqueles professores dedicado, correto e sempre buscando uma forma de auxiliar seus alunos com uma palavra amiga, com a dica de um luar para trabalhar, um curso gratuito para fazer, enfim, um paizão. Pouquissímos alunos e alunas não gostavam de conversar, brincar e, principalmente, assistir as aulas do Freitas. Um amigão,um paizão,um cara lehal diziam os seus alunos e os ex-alunos.
     Conhecia todo o mundo. O policial militar da quadra,o pai do fulano,a mãe do ciclano,a vó da beltrana e sabia das dificuldades que seus alunos passavam.Lá se iam vinte e tantos anos de profissão e não havia um rosto,um olhar,um gesto que não indicasse ao bom professor uma necessidade daquela gurizada.
     Lá ia ele por aquela rua em direção a parada do ônibus, quando ouve um ruído de um carro que se aproximava mansamente. Não pode ser, pensou o professor Freitas. Será que vou ser assaltado na vila que já dedico quase quinze anos de trabalho ?O que vão me roubar? Meu relógio paraguaio que consegui comprar com muito custo ou meu tênis que mal terminei de pagar. E se me roubam a pasta com os cadernos de chamada e minhas anotações nesta agenda que ganhei há dois anos atrás ? Não, só falta me roubarem o dinheiro dapassagem e euter que ir caminhando atéem casa. O som do motor, um ronco pesado e que marcava uma cadência horripilante se aproximava cada vez mais. O estômago do profesor Freitas se contorcia e a sensação do perigo eminente contraia todos os músculos corpo do professor.
     Uma pequena olhada de canto de olho e o quadro se tornou assustador. Um opala preto,com os vidros escuros e um turbo em cima do capo completou a dose de pavor que tomava conta daquele professor agora sentindo-se o ser humano mais indefeso da face da terra. O carro para alguns metros à frente e a porta de abre. -Mestre! A voz era rouquenha, tétrica e vinha do fundo dos pulmões de um jovem negro de uns dois metros de altura. Um verdadeiro ármario que saia de dentro daquele opala preto e se locomoviapesadamente na direção do franzino professor.
     -Mestre, o que faz aqui há esta hora? Tu tá perdido meu fessor?Com um sorriso escancarado e uma linguagem de malandro, o rapaz abria os braços na direção do professor que recebeu um abraço esmagador. O professor viu o chão se abrir aos seus pés, um suor gelado aflorou por todo o corpo e um calafrio insistia em arrepiar sua pele. Foram instantes de um verdadeiro filme de terror,pavor,pânico....Ele não sabia como descrever o que passará em sua cabeça;
     - Jambolão, que susto me deste. Estou indo para a parada de ônibus.Perdi minha carona e vou esperar o ônibus na esquina.
     - “No problem” meu mestre, eu faça a tua segurança até o ponto. Virando-se para o carro, já deixado um pouco para trás, grita para os três ocupantes que lá estavam:
     - Ô cachorrada, vamo acompanhá o mestre até a parada do ônibus fazendo a sua segurança. Na maior e de mansinho.Vamos firme,meu mestre que quem tá com o Jambo,tá melhor do que com Deus!
     - Tá bom.
     Foi à única coisa que o professor Freitas conseguiu dizer. Jambolão tinha sido aluno dele até a 5ª série e por uma série de razões havia parado de estudar e se dedicado a prática atos que iam de encontro aquilo que se chamava “ bons costumes”,infelizmente.
     - Gente boa, a voz era retumbante, tu não sabes que eu tenho boas lembranças das tuas trovas nas aulas que tu davas na 5ª série, porém, o negrão aqui tá batalhando numa outra área. Distribuo,dou atraque nos mané,mas lembro bem das tua lição,meu “brodi”.Sabes...Sabes que até dou uma graninha,por fora,para os menos favorecido aqui e ali.Ajudo os velhinhos e compra de mim quem qué.Não sou de insisti.
    - Ah! Entendo, mas tu estás bem? Não pensa em retornar aos estudos e concluir o ensino médio e batalhar por uma profissão mais tranquila?
      - Até penso meu mestre. O tempo é que é curto prá cumprir com todos os meus afazeres.O dia tinha que ter mais horas,vinte e quatro para todos os meus compromissos é muito pouco.
     E lá iam os dois na direção do ponto do ônibus. Chegando,o opala estacionou na esquina,deslizou os faróis e o motor.Um dos rapazes coloca a cabeça para fora,pela janela,e grita:
     - Temo aqui, quarqué coisa metemo bala e voceis se abaixa!
      -Não... Não é preciso nada disso, o professor Freitas nunca tinha passado por uma situação daquelas.
      O garotão contava dos assaltos,da venda de drogas,das atitudes disciplinares que impunha aos que lhe deviam e mostrava as duas pistolas que o acompanhavam na sua labuta diária.
     Ao mesmo tempo em que sentia remorso por não ter podido ajudar mais o então, menino da quinta série achava interessante que o “deliquente” mostrava um coração bondoso com alguém que uma vez tentou ajudá-lo. Era um verdadeiro paradoxo. Neste momento, explodiu-lhe na cabeça uma péssima e irreparável situação. E se naquele momento a viatura da polícia militar passasse por ali.Naquele momento,vendo aquele quadro.não haveria explicação que fizesse entender ele ao lado do indivíduo mais procurado do bairro por uma série de delitos.Imaginava a repercursão do fato.Cinco elementos detidos pela polícia entre eles um professor da escola do bairro ! Não, o martírio teria que ter um fim. Era uma mistura sensações que engasgava o pobre professor: o cuidado do ex-aluno para com ele e o histórico de transgressões que ele havia cometido. Verdadeiramente um terrível paradoxo.
     - Jambolão, aí vem um táxi lotação. Vou nele para não te atrapalhar e não chegar tarde em casa. O Jambolão dirije-se ao meio da rua e com os braços abertos começa a fazer sinal para o táxi lotação parar. O motorista ao vê-lo não sabe se acelera ou pára. Abre a porta do veículo e branco como uma folha de papel só tem tempo de dizer:
     -Sim...
     -Este é meu mestre. Leva ele na legal até onde ele disser e nós vamo só na proteção.
     “Meu mestre!”, pensou o professor Freitas. ”Meu mestre” do quê ? E subindo no táxi lotação virou-se para trás e falou:
     -Obrigado Jambolão. Valeu a força e te cuida!
     -É isso aí, mestre dos mestres. Toca a coisa que “estamo” na tua cola.
     O motorista riu amarelo e acelerou. Seus olhos não desgrudaram do retrovisor e devia estar rezando a todos os santos,pois era o professor Freitas e ele naquele veículo. Constrangido o que o professor conseguiu dizer foi:
    -Não sou mestre do que estás imaginando. Vai tranquilo que sou professor e aqui está o dinheiro da passagem.Ele foi meu aluno na quinta série. O que o professor Freitas ouviu a seguir foi um grande supiro do motorista e o ronco do motor do opala do Jambolão que vinha “na segurança”.

Autor
Renato Hirtz

CAUSO: A CARONEIRA

Blog de coisastantasderenatohirtz :COISAS TANTAS DE RENATO HIRTZ, CAUSO:    A CARONEIRA
     Lurdimila era uma funcionária de escola, solteirona, cheia de manias e fricotes. Sempre pintada de modo exagerado que lembrava mais uma máscara chinesa do que outra coisa.Não gostava de ser comparada com as outras colegas de função, pois tinha feito o supletivo de 1º grau e achava que estava num patamar acima das demais.Em vista disto, não ficava partilhava recreio com as colegas e sempre exigia atividades menos pesadas.Adorava ficar encostada no balcão da secretaria e de quando em quando se metia a dar informações e a despachar pais e outras pessoas que ali compareciam.
     Tinha uma mania que todos os colegas detestavam. Não se descuidava de escalar-se para uma carona e muitas vezes exigia a alteração de roteiro de quem lhe dava a carona, ou para vir para a escola ou para ir de volta a sua casa.Não esperava ser convidada e o pior, não colaborava com a vaquinha para a gasolina.E, morava a uns 10 minutos de ônibus da escola.
     No horário da saída dos alunos e professores, o pessoal que tinha carro e já possuíam seus caroneiros tratavam de ir logo embora (quase fugindo), pois a Lurdimila, mesmo com o carro lotado, pedia carona e dava um jeito de entrar e sentar-se de modo confortável.
     Paulo Emílio e Sérgio Ricardo eram dois jovens professores que faziam parte daquele sofrimento. Morando num outro município e nas proximidades do mesmo bairro iam sempre juntos de carro, alternando ora no carro de um ora no carro do outro para poupar combustível.Eram dois grandes gozadores e não perdiam uma chance de se divertir ou aprontar alguma brincadeira com os colegas.Nada de maldade, mas sempre estavam atentos para uma “pegadinha”.
      Os dois professores eram considerados excelentes, além disso, estavam sempre dispostos a colaborar nas atividades extraclasse, preocupados com o rendimento dos alunos, procurando trazer sempre novidades e atrativos para seus alunos. Os dois ainda estudavam na Universidade, trabalhavam outras escolas e tinham seus compromissos sociais como todo o bom jovem.
     Viviam, por isso, sempre com os horários preenchidos e voando de um lugar para o outro cumprindo com suas obrigações. Andavam sempre no limite de velocidade em seus fuscas a fim de cumprir com suas obrigações.
     Certa vez, saindo da escola, já com o fusquinha lotado (com outros dois caroneiros) foram barrados pela Lurdimila.
     -Professor Sérgio Ricardo, hoje o senhor não escapa de me dar uma caroninha. Podiam me deixar na praça central da cidade.Tenho um compromisso e não posso chegar atrasada.
     -Mas estamos com o carro lotado. Veja se outro professor não te leva para lá.Sérgio Ricardo não gostava de colocar mais de quatro passageiros no seu fusca, pois forçava muito a suspensão do carro e o consumo de combustível era maior.
     -Mas é só até o centro. E os outros professores estão com os caroneiros certos.E estou com pressa e eles se amarram muito para sair.
     E Lurdimila não espera resposta. Mete a mão no trinco da porta, empurra o banco do passageiro (com passageiro e tudo) e entra com seu traseiro grande dentro do fusca.Sentou é o modo de dizer.Ela despencou em cima dos dois colegas e os esmagou nas laterais do veículo.
     -Vamos professor. Estou com uma pressinha.Não posso me atrasar.
     Sérgio Ricardo, furioso com a situação e pronto para dar um fim naquilo tudo, arranca com o fusca acelerando tudo o que podia e imprimindo a velocidade máxima que o carro permitia. E já conhecedor da estrada fazia as curvas para direita e esquerda em velocidade e perícia de um piloto de provas. O fusca voava pela estrada que separa a escola do centro da cidade.
     A cada cantada de pneus, nas curvas, o silêncio dentro do carro aumentava.A conversa foi se extinguindo até que se fez um silêncio mortal. Lurdimila quase em sussurro bate no ombro do Sérgio Ricardo e diz:
     -Professor, eu estou com pressa, mas nem tanto. Pode ir um pouquinho mais devagar.
     -Esta é a velocidade normal que eu ando. E olha que hoje eu não estou com pressa. E Sérgio Ricardo continuava sua desabalada carreira até o centro da cidade. Na praça central ele para o carro com uma freada de queimar pneus.
     -Chegamos dona Lurdimila. Bem no horário.
     Neste momento um cheiro de urina toma conta do interior do carro. Todos se olham e Lurdimila branca como um papel, diz:
     -Não adiantou nada chegar no horário. Entra na próxima rua e me deixa em casa que eu “afrouxei as urinas” e tenho me trocar. 
    Sérgio Ricardo estava furioso, pois o banco traseiro do fusca estava molhado de urina, arranca com o carro, novamente, em desabalada carreira e para na frente da casa da Lurdimila.
     -Pronto. Amanhã eu trago a conta da lavagem do carro.Quando quiser outra carona é só pedir.
     Entre risos e lamentações pelo cheiro da urina que pairava no interior do carro, lá se foram os quatro professores aos seus destinos.,porém, tinham uma certeza:Lurdimila nunca mais iria pedir carona para eles.
     E assim aconteceu.

Autor:
Renato Hirtz

CAUSO: A MOELA


      O dia estava ensolarado.Havia aqui e ali uma cerração característica das manhãs de inverno, nos lugares mais baixos.Com o passar das horas se dissiparia. O grupo de supervisores da Delegacia de Educação estava aposto esperando a condução que os levaria a uma escola distante do município sede.Se tudo ocorresse normalmente, chegariam lá por volta do meio-dia.
     A diretora da escola já havia entrado em contato com a Chefia da Supervisão avisando que esperaria com um almoço quase festivo o grupo de supervisores.
     Adroaldo era o supervisor administrativo.Já aposentado, por sua experiência e dedicação, havia retornado ao trabalho.Homem matreiro sabia soltar uma piada ou gozar com a cara de alguém sem formar o menor sorriso.Era terrível, por exemplo, ficar ao seu lado durante uma reunião.Falava aos sussurros os maiores impropérios e sandices que se poderia esperar. Martha e Gélica (era assim mesmo o nome desta professora) faziam uma dupla e tanto.A primeira era supervisora pedagógica e a outra, administrativa.Eram a corda e a caçamba.Não havia cristo que as separasse quando tinham que exercer suas funções profissionais.Nem imaginavam os seus apelidos: a “gorda” e a “magra”. O professor Marinho era um gaudério dos bons.gente fina mesmo.Bonachão, com um bigode de fazer inveja, misturava a pilcha gaúcha com o abrigo esportivo, já que era professor de educação física.Quando dava uma folguinha corria ao carro e tirava da porta-mala o seu violão.Milongueiro dos bons. Havia a Fabrícia e a Francisca.A primeira era uma moça magrinha de fazer dó, porém muito competente e simpatia, fazia par com a Professora Francisca, sua tia.Era uma senhora cinquentona, que se colocava como mãe de todos tanto para elogiar como para dar carraspanas se as coisas não corriam bem. Lindomara era assistente de gabinete.Moça despachada e voluntariosa.Não queria saber de nada se tivesse de comprar uma briga em nome do Coordenador.Uma crítica mal colocada e a peleia era das brabas.
     Embarcaram cedinho, os sete, com destino a dita escola. Lá pelas dez horas da manhã já apresentavam certa fadiga.Estavam cansados de ouvir os causos e piadas do professor Adroaldo.O traseiro ardia e a fome começava a incomodar.
     - Para o carro (era uma Kombi, o veículo de transporte) em uma lancheria para que possamos comer alguma coisa e esticar as pernas, seu Romualdo,falava a professora Lindomara que não conseguia ficar parada muito tempo em um mesmo lugar.
     Seu Romualdo era o motorista.Baixinho, de barba bem escanhoada, cabelo detalhadamente penteado.Parecia um cantor de boate (das brabas!). Entre “vou comer isto” e “acho que vou comer aquilo”, o professor Adroaldo olhou daqui e dali e por fim pediu uma água mineral.Sentou-se um pouco afastado do grupo das “meninas” só observando o local.
     -Me dá um pão louco de especial com salamito e um copo de café preto, pediu o professor Marinho e foi comer o “especial” em baixo da figueira que ficava na frente da lancheria. Sanduíche aqui, pãozinho com manteiga para lá, fatia de bolo àquela e Fabrícia, muito gulosa, pediu um pastel dos grandes e um refrigerante. Conversa vai e vem e Fabrícia depois de ter comido metade do pastel “saborosissímo”, elogia:
     - Espetacular este pastel feitinho na hora.Tem até azeitona preta das grandes! Neste instante, o professor Adroaldo chega na mesa das “gurias” e com um tom irônico diz: 
     - Falem baixo, pois caso contrário o cascudo que esta no pastel da Fabrícia acorda e voa!
     O silencio foi geral e acompanhado de espanto.Todas olham para o pedaço de pastel na mão da Fabrícia.Era um cascudão daqueles bem alimentados, duro e lustroso. O banheiro ficou pequeno para as “gurias” vomitarem até a alma.
     Passado o pânico e refeitas do acontecimento se dirigiram como uma “carga de cavalaria” em direção ao dono da lancheria.Este estava com um pano entre as mãos e o torcia com desespero.Encostado no balcão estava o Professor Adroaldo (com aquela cara inocente), o professor Marinho (tapando a boca para não mostrar o largo sorriso) e o seu Romualdo (com uma cara de velório). Fabrícia se deslocava socando o chão, em coro com as demais, fulminando o dono do estabelecimento com o olhar.Levantou o dedo indicador na direção do proprietário da lancheria e quando ia abrir a boca foi interrompida pelo professor Adroaldo.
     - Calma professora! Está tudo acertado.Com o pedido de desculpas do senhor aqui vai de graça o refri, o pastel e o cascudo de lembrança. Foi água fria na fervura.As “meninas” ficaram sem saber o que fazer.Os três saíram de fininho escondendo o riso de gozação pelo acontecido. As “gurias” entram na Kombi sem dizer uma palavra, com o estômago embrulhado, a fome já corroendo e a raiva à flor da pele pela atitude doProfessor Adroaldo.
     Na escola foram recebidos pela professora Miguelina, uma alemã possante que efusivamente recebeu a todos e os conduziu a uma sala de aula improvisada como refeitório. Ela tinha sido designada como diretora para aquela escola, pois havia concluído o normal rural (um tipo de supletivo para as professoras que não possuíam titulação).
     O cardápio constituía-se de canja de galinha, arroz com galinha e salada de batata com galinha desfiada.Como a fome era tanta, a canja de galinha foi consumida com grandes elogios à diretora que tinha passado a manhã preparando tudo.Só o professor Adroaldo não comia a canja colocada em seu prato, não parava de falar e quando questionado pela sua atitude, justificou que a viagem o havia enjoado e lhe tirara a fome. Fabrícia com seu apetite quase doentio pediu licença para o Professor Adroaldo perguntando-lhe se podia aproveitar e comer a canja de seu prato.O professor com um sorriso quase diabólico, coloca o prato na frente da colega e diz:
     -  À vontade colega.Se gostares de uma deliciosa canja com moela inteira, faça bom proveito!
     Boquiabertos todos se entreolharam com o rosto deformado pelo espanto. A corrida campo afora foi maravilhosa de se ver.Vômitos compulsivos,gritinhos nervosos de nojo e desmaios ocorreram.A Professora Miguelina se esvaía em pedidos de desculpas.O professor Marinho e o motorista Romualdo riam e ainda criticavam a desfeita:
     -Empurra a moela para o lado e continua comendo. Ela estava fechada, porqueira.Não tem problema.A fome é tempero de qualquer comida - falava o professor enquanto saboreava o tão badalado arroz com galinha e salada de batata,depois sorver tão famigerada canja.
     Já o professor Adroaldo sentado na sombra de uma árvore comia com prazer um pacotinho de bolachas recheadas,com sorriso disfarçado de satisfação sarcástica pronto para iniciar os trabalhos de supervisão.

Autor:
Renato Hirtz

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